quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Crítica - O Estado de São Paulo


CADERNO 2
Quarta-feira, 11 julho de 2007

LIBERDADE DA ARTE FAZ A GAIVOTA VOAR ALTO

por Mariangela Alves de Lima

Repetidas vezes, ao longo de seus escritos, Clarice Lispector definiu sua obra como uma espécie de resíduo, sobra inevitável de uma busca malograda. Não por acaso ela é uma das musas protetoras da Cia. dos Atores. Desde que se apresentaram em São Paulo pela primeira vez, há quase duas décadas, esses artistas cariocas liderados por Enrique Diaz têm trabalhado sobre uma constante que, sob o rótulo um tanto pedante de 'desconstrução', encobre uma poética dedicada a celebrar as operações simbólicas. A coisa pronta, o ponto final e a procura do sentido unívoco são, ao que parece, fantasmagorias de uma etapa da história da arte que o grupo contesta por meio de espetáculos onde se sobrepõem efeitos visuais e sonoros, afirmações filosóficas e elocuções impregnadas de emotividade. De um modo geral, seus trabalhos enfatizam a pluralidade de sentidos contidos nos signos teatrais.

E é sobre essa linha mestra, exteriorizada com freqüência suficiente para caracterizar a identidade estética do grupo, que se organiza a encenação de Gaivota. Diante da peça-símbolo do Teatro de Arte de Moscou e marco fundador da modernidade teatral, o coletivo carioca exercita um trabalho de investigação e faz desse estudo um espetáculo. E o que chega à cena é, não a peça de Anton Chekhov, mas o resultado de uma aproximação que cerca o objeto por vários lados. Ou, para usar um mote de Jorge Luiz Borges, outro gênio protetor do grupo, o espetáculo seria uma promessa que não se cumpre, revelação iminente 'que não se produz'.

A aventura da busca e a agonia da dúvida são estados anímicos antagônicos nos processos de criação artística e o espetáculo explora intensidades e variações desse pêndulo energético por meio das personagens chekhovianas. Há intérpretes-criadores questionando o texto e experimentando personagens, cenas e arranjos espaciais sem que isso se estabilize em uma narrativa seqüencial. Há perguntas, inclusive, que poderiam ser endereçadas a qualquer outra peça. Estão em relação de simetria com os temas da peça, mas não é indispensável recorrer à narrativa original para compreender as vertentes artísticas que se abrem em leque por meio dessa proposta pluralista. O escritor Trigorin, por exemplo, pode não ser tão grande quanto Tolstoi, mas é representado no espetáculo como algo mais do que o homem vaidoso e egótico que a trama indica. Isolado da continuidade narrativa (uma vez que o episódio da sedução não interessa ao recorte do espetáculo), torna-se antes de tudo o criador obcecado para quem a vida interessa apenas como matéria para a ficção. Cada personagem, enfim, insinua um prisma da arte contemporânea e, a um só tempo, um movimento psíquico comum às mais diferentes tendências artísticas e etapas históricas. E não é preciso rememorar a evolução da arte no final do século 19 porque o diálogo travado entre personagens chekhovianos e atores-personagens, ambos situados em um esquema narrativo fragmentado, expõe o mecanismo analógico que associa os diferentes tempos. Ou seja, a correspondência que o espetáculo põe em relevo é a da filosofia da criação com seu caráter especulativo e abstrato.

Enquanto personagens do autor russo, os quatro artistas têm limites impostos pela verossimilhança e cada um se identifica com uma tendência artística. Examinados em sobrevôo por intérpretes do século 21, as duas atrizes e os dois escritores da história se amalgamam em uma discussão estética que interessa a todos exatamente porque não pode mais afirmar valores com segurança ou permanecer em uma única trincheira.

É a flutuação sobre um espaço amplo, branco e de início desguarnecido que sintetiza a concepção intelectual do espetáculo. Afonso Tostes faz aquela cenografia sutil que tem até zona de ocultamento, mas não se percebe. Aos atores compete - por meio da figura que nos faz tomar a parte pelo todo - trazer ao palco a mansão rural, o lago, o bosque, a lua. Sob esta ótica é também tarefa dos intérpretes desmanchar o encanto e devolver o material usado em cena à inércia significativa. Constantemente fazendo, desfazendo, transportando, vestindo e desvestindo, esta Gaivota transfigura em teatro um sentimento da arte contemporânea que é o de estar em absoluta liberdade, exultante e à deriva.

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